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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

o anjo excedente


continuação para o conto "Réquiem por um fugitivo",
de Caio Fernando Abreu.


Agora, sempre que entro no quarto
que foi de minha mãe até o dia em que ela partiu para a outra terra, para a outra parte desse mundo, tão existível e desconhecida tanto por mim quanto por você, sou levado a caminhar por toda a área do pequeno e misterioso cômodo. Todo dia, antes de abrir a porta, um pensamento atravessa minha mente e é como se, no fundo de mim, eu ainda acreditasse que descerrando aquela porta rústica a encontraria deitada em sua cama, vestida com aqueles olhos de preguiça típicos de quem está desadormecendo, e que aos poucos a veria espreguiçar-se belissimamente, como que pressentindo ali a minha presença. Por isso, antes mesmo de pôr as mãos na fechadura, algo estranhamente sublime me acontecia e de súbito uma força leve cobria meus dedos e punhos, fazendo-me lançar sobre o gélido ferro da porta mãos que não eram as minhas, de tão exageradamente suaves e delicadas. O quarto ditosamente é o mesmo. Foi de minha vontade deixá-lo do mesmo modo como minha mãe o deixou antes de partir em definitivo. A cama permanece no centro, majestosa, com um ar de trono peculiar, penso, a uma rainha que é imortal. O criado-mudo encostado na parede, ao lado direito da cama, com sua parte marmórea brilhando de tão encerada. O abajur com a lâmpada azulada que ela usava porque tinha receio da escuridão total do quarto. O chapeleiro onde pendurava suas bolsas e cintos, a pequena estante negra, sua caixinha de música, suas poucas jóias e alguns penduricalhos. Tudo guardado no encanto do amor, como se o ato de guardar os seus objetos far-me-ia estar também a guardar para sempre a sua imagem em mim. Deus sabe como dói o peito quando me invisto naquele setor da casa, como me acerco de uma falta de ar que me comprime o corpo. Só não há mais o velho guarda-roupa, mas isso não tive como evitar. Existe uma forma de lembrança que é aterradora. Hoje, depois de revê-lo partir junto a minha mãe, no filme de nossas existências, ruflando suas asas e atirando-se sem medo ao mundo imenso dos mundos através da janela desse quarto, eu me pergunto por que razão não tive forças na voz para lhe dizer alguma coisa nas vezes que o vi, alguma palavra que fosse ao menos amiga e carinhosa, e que lhe confortasse um pouco ou lhe dissesse que eu me sentia bem sabendo que estava ali, dentro do móvel preferido de minha mãe, protegendo-a contra qualquer mal possível, protegendo-me também, mesmo você não suspeitando disso, apenas com a sua forte presença. Quando penso que perdi todo esse tempo, que não fui capaz de abraçá-lo sequer uma vez, que não arranquei para fora o meu orgulho hipócrita para dizer do meu amor por você, vejo o quão devo ter sido um filho ruim, um filho indigno, sem amor no coração. Eu que passei todos aqueles anos desconfiando de você, sem saber quem realmente era, o que pretendia, o porquê de viver naquele canto tão escondido da vida, completamente retorcido, amordaçado por um ar preso, morando dentro do guarda-roupa da minha mãe, despedaçando-se aos poucos. Demorei muito para acreditar na idéia de que minha mãe era o fator dissonante de toda essa história. Ela havia mentido para mim e eu fui caindo em sua teia sem maldade, aprisionado como um inseto perdido na selva das coisas. Mas ela fez tudo ser desse jeito porque antes de tudo ela me amava como a um filho legítimo, que tinha dentro de si o mesmo sangue que nela corria. Por isso não guardo mais mágoa, o tempo nos previne de muitas judiações e por vezes apaga o que é para se ter piedade. E aquele meu ar de mediocridade diante de mim mesmo, do poder revelador de minha face, assim como a ausência de um algo que me avisasse acerca da real direção dos ventos, para onde iríamos todos, aonde chegaríamos, o que encontraríamos no final do corredor da vida ou em uma de suas inúmeras curvas, aquilo tudo me fazia pensar duas vezes antes de fitar a verdade que existia dentro daquele seu olhar. Você soube nos auxiliar sem mexer suas asas. A vida parecia mais limpa quando eu saboreava um pouco de sua realidade. Era como se uma criança, carregada pelo pai numa estação repleta de pessoas, tomasse o rumo certo-incerto de sua liberdade e, a partir de uma fuga, começasse a descobrir-se, desabrochar-se como faz uma luz ao se acender em câmera lenta. Eu retrago esses fatos à tona porque hoje é, talvez, o dia mais importante da minha vida. Sozinho nessa casa, ao longo de dias na companhia da tristeza e do sofrimento, coisas fantásticas me aconteceram. Paulatinamente, meu corpo sofreria alterações profundas. Sem dor sentir, duas pequenas asas nuas de pena brotariam em minhas costas. Não fora derramado sangue nem feito quaisquer intervenções cirúrgicas para tal. Simplesmente um par de asas nascera em mim e, ao transcorrer das horas, elas ficariam preenchidas com alvas penas, essencialmente macias e confortáveis. Intrigantemente, diferente do que poderia ter ocorrido com outra pessoa, aceitei a mutação como um adolescente aceita o engrossar de sua voz no início da puberdade. Confesso que, por diversas vezes, esbarrei o meu novo órgão na estreita porta da cozinha, ainda desacostumado com o volume, e também no box do banheiro, quando distraidamente deixava o sabonete escorregar de minhas mãos e dava os volteios necessários para apanhá-lo novamente, mas nada que me fizesse sentir ojeriza por estar a carregar em meu dorso um par de asas angelicais. Desde aquele primeiro dia de mutação, percebi que você era o meu pai. Sim, eu sou o teu filho, posso exclamar, um legítimo anjo como você também o é. E hoje, pai, hoje é o dia que voarei pela primeira vez. Eu decidi tudo, é o meu mais íntimo desejo. Vou sair pela mesma janela que você saiu. Vou alcançar os galhos mais altos da nossa árvore, e com toda a força que tenho te encontrar. Sou a criança liberta de qualquer amarra, que jamais se esquece de pagar pelas imateriais fortunas adquiridas. Sou o filho que viu o pai sofrer e nada fez por não saber, simplesmente. Hoje habitarei o mundo por sua causa. E vai ser agora...

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

parecer sobre o maldito


curvaturas em desalinho
da mulher-pecado,
as sinuosas da seda
colada ao corpo quente
atenuam as feras criadas
nas jaulas do coração.

(ela chora, e sua lágrima
faz derreter as esferas
esquálidas e sequiosas
das mentes mais vãs)

curvar-se é brasão de fraqueza.
o amor jorra feito o fogo
das claridades mais absurdas.
o controle é perdido, e perdido
é o afã de se querer controle.
a queda de um abismo é livre,
fatal consequência e o seu golpe.

não há escape nem saída.
tuas melenas são correntes,
frias e alucinantes,
de um rio de querenças diárias
sobre você.

a noite não tardará, o que vejo é apenas
o começo de uma batalha onde o vencedor
roga sempre por perdão.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

entrevista para tv


Dentro dos próximos dias, será exibida no telejornal GR TV 1ª Edição (meio dia), da emissora TV Grande Rio, afiliada da Rede Globo com sede em Petrolina-PE, uma matéria cuja pauta é: "Escritores Anônimos do Vale do São Francisco". Fui entrevistado pela jornalista Leciane ontem, dia 06 de julho. Falei um pouco acerca de meu convívio com a escrita, minhas inspirações e aspirações, projetos e, no final, li o poema "Dados Divinos", de minha autoria. Para quem mora onde o sinal da TV Grande Rio chega com clareza, vale a pena ficar de olho. Abraço a todos. Sigamos...

moscas


acordou tentada por uma brusca vertigem. nada sentiu. caminhou até o espelho. o espelho guardava a imorredoura memória do presente. a perspectiva daquele rosto antigo e amargo era quase um desagrado. banhou-se. ali também havia um espelho. depois a mão de creme sobre o cabelo molhado. novamente o espelho. quis vomitar ao ver a imagem. ao pé da cama, enfiou cuidadosamente os cadarços do tênis nos orifícios. apertou o cinto de couro marrom, passou ferro na camisa branca de linho que foi de sua madrasta. lembrou de sua infãncia no interior e olhou pelo vidro. quase veio a vomitar. comeu azeitonas no café da manhã. não gostava de azeitonas. sentiu uma forte dor no estômago. preparou um sal de frutas e bebeu. mentiu a dor o dia inteiro. quando voltou, olhou a prataria suja sobre a mesa repleta de moscas. virou-se. fechou a lua de sua janela. olhou a lâmpada queimada no teto, percebeu uma mosca pousada em sua boca. procurou o espelho. era escura a noite. o dia inteiro.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

meu livro


meu livro é livre,
móvel, vivo.
abro-o, altera-me.
ouço-o, escreve-me.

meu livro cá dentro mora,
paisagem sem fim.
conta ele a história
da liberdade, de seu inventor.

apesar de assim ser
meu livro livre, móvel e vivo,
é dependente de mim.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

o chão do amor


- Velha infame – disse a mulher.

O homem abaixou o portão da garagem, trancou com chaves as duas portinholas que funcionavam tal qual um olho-mágico, olhou a caixa de correspondências, viu que nada havia lá dentro, fechou. Percebeu que o gramado da área frontal estava precisando de mais adubo, pensou em amanhã e se queixou:

- Também não foi meu dia hoje.

O homem, garboso em seu terno xadrez, sapato bico fino, legítimo couro, chegou à porta que dava para o interior da sala de estar. A mulher o esperava com respiração arfante, só ele poderia abrir. Aparentando nervosismo, ela fazia um movimento de ir-e-vir com uma das pernas inclinando calcanhar e pé sobre os dedos, de modo que muito lembrava uma bailarina quando esta se eriça rodopiando na ponta dos artelhos dos membros inferiores. O homem era jovem, branco-aloirado, traços escandinavos. Um lenço de cor sóbria lhe adereçava a lapela, tinha o colete em perfeita combinação de tons com o restante da vestimenta, gravata cinza. Tudo muito bem ajustadinho, apertado, como se uma costureira tivesse tirado suas medidas e feito a amarradura das linhas no calor das próprias mãos.

A mulher foi à pequena mesa-bar e encheu um copo com conhaque, o homem observou sua face irritadiça, e do mesmo modo a mecha cacheada de cabelos negros que lhe encobriam o olho esquerdo como um tapete de plumas acariciando-lhe a pela macia. O homem falou algo sobre o seu colega de escritório e percebeu-se vencido pela tentação despertada pelo rastro de perfume deixado pela mulher na extensão do cômodo.

A esta altura, qualquer um que adentrasse no local teria percebido o cenho modificado do homem, a cor rosácea sanguínea preenchendo seus contornos, provavelmente liberada por estímulos ulteriores. Atingido de tal forma, pôs a aproximar-se da mulher que bebia, soluçando de raiva. Tocou o ombro, imprimindo-lhe uma pressão para que ela se voltasse à direção em que estava agora. O homem lhe sorriu com uma suavidade rigorosa.

Mais de um quarto de hora já se passava quando o homem, afrouxando os botões do terno, resolveu sentar, num momento de só pensamento, copo de conhaque seguro pelas duas mãos apoiadas no joelho. Chateado, desconfortavelmente perdido em suas idéias, fitou languidamente um fio de cabelo da mulher preso ao carpete, sob a mesinha de centro.

- Sente-se aqui – falou, fazendo sinal com a cabeça.

- Aquela velha desgraçada.

- Calma, você tá tão linda hoje.

A mulher encostou o rosto no ombro do homem, tinha tensão no canto dos olhos e no queixo, não podia disfarçar. Morena-clara, trejeitos indiáticos, corpulenta, propícia para os lampejos maternais. Ficou ali respirando um ar confuso, imaginando mil coisas, parada, dando pequenos goles no líquido alcoólico.

- Quase perdemos tudo - rompeu a voz da mulher o curto silêncio que ali se instalara.

- Não diga isso.

- É porque você não viu como a expressão do rosto daquela velha mudou hoje.

O homem a abraçou, mesmo estando meio torto no sofá.

- Nem olhou na minha cara.

- Tem gente que é mesmo muito desconfiado.

- Não consigo tirar isso da cabeça. Amanhã ela vai ter comigo quando aparecer no escritório. Não vou deixar isso barato – disse, engolindo de uma só vez o conteúdo do copo.

O homem pensou no dia atribulado, mas não deferiu nenhuma palavra. Antes que a mulher lhe dirigisse mais descontentamentos, o homem aplicou um beijo longo na boca carnuda da mulher.

- Mas ela não perde por esperar – disse ela, no justo instante em que descolaram os lábios -, jogo até praga se preciso for. Aí ela nunca mais inventa de vender um terreno assim, tão sem querer, tão sem vontade.

A mulher olhou em torno, novamente pousou as vistas na mesa-bar. Foi buscar mais conhaque. Já estava amolecida com o efeito provocado pelo primeiro copo. Copo cheio dessa vez, transbordando.

- O estagiário errou um cálculo de área e por pouco não perco o emprego.

- Me dá um beijo – sussurrou a mulher, malemolente -, me faça esquecer aquela velha louca.

- Dou sim.

- Me ame.

- Vem, meu bem...

O homem pôs o copo sobre a mesinha de centro e abraçou a mulher antes mesmo de ela chegar ao sofá.

- Ponha o copo junto ao meu.

- Desgraçada! Bandida! – exclamou a mulher, enlaçando-se nos braços do homem.

Estavam embebidos num ar confortável de delírio e ira, ambos compenetrados nos acontecimentos do dia, nos desenredos do trabalho, nos descompassos dos trâmites morais e de negócios. Não conseguiam amenizar a cólera, tampouco desfazê-la totalmente. O homem a olhou nos olhos, puxou-a pelas mãos e foram em direção ao quarto.

- Eu te amo.

- Por que não tira a minha roupa? – bramiu a mulher, jogando-se de bruços no colchão.

- Confessa que estamos bem, amor, me sinto tão bem com você.

- Estamos.

- Se não fosse as desavenças lá na empresa, eu diria sem medo que hoje foi um dia perfeito. Teu cheiro...

- Alguém deve ter enchido a cabeça dela de caraminholas pra ter pensado em desistir da venda – disse a mulher, passando a mão libidinosamente sobre a calça do homem, na altura do pênis.

- Tenho quase certeza disso. Deu conta de que pediu muito pouco por terreno tão bom. É uma espécie de arrependimento sufocante, que fere ambas as consciências, tanto a de quem compra quanto a de quem comercializa. Lembro de muitos casos assim. Não seremos os últimos.

A mulher descerrou o zíper da calça do homem, tirou da casa o botão e arriou-a. Passeou a face por toda a coxa direita dele, com a bochecha roçando os pêlos macios próximos à virilha. Sentiu o membro ganhar forma e atacar a barreira da cueca. Naufragava em calores úmidos, descidos desde o couro cabeludo até sua panturrilha. Silenciosa, ébria, apalpou o membro do homem com uma das mãos, quase deitada sobre a cama, num esforço tripudiado pelas lembranças castrantes do afetado dia.

- Porra de mulher!

- Amanhã você vai ao fórum e pega a assinatura com o velho Gomes. Aí tudo se resolve. E vê se não olha pra cara deslavada dela novamente – vociferou o homem, já tomado pelas pulsões do sexo febril.

- Hoje fiquei sabendo que ele está caduco, não sei se vai conseguir assinar o documento.

- Ele está vivo, é o que importa. Não aceite nem as digitais. Faça com que ele assine nem que for com a ajuda de alguém. A letra é a melhor prova. Dispensa até as testemunhas – completou, olhando para baixo e vendo a mulher lamber seu pênis, colocando-o inteiro na boca, enquanto atravessava seu corpo grande por cima do seu.

- Parecia até que estava com raiva de mim, como se fosse eu que tivesse feito a besteira de vender o terreno a preço de banana.

- Penso que ela não fez nenhuma consulta antes.

- Ah, Ah... – gemeu a mulher.

Estavam os dois deitados. Tórax sobre tórax. A mulher em cima, fazendo movimentos lentos. Começavam a suar. O ar no quarto tornara-se abafado, um pequeno espelho na cabeceira da cama iniciou uma espécie de embaçamento. Amavam-se, indubitavelmente. Loucamente, desmedidamente, ferozmente. Mas os olhos abertos dos dois provocavam um ruído na engrenagem natural das horas. Era como se não suspeitassem de que estavam ali, um dentro do outro, em escavações corpóreas e fabricando rituais de dança. Os olhos, vivos como nunca, emprestavam àquela transa um sentimento de completa estranheza. Estariam cegos? Presos às amarras do cotidiano? Encaçapados no duro jogo da vida?

- Vou preparada amanhã – disse a mulher, saltando ininterruptamente sobre o homem, devidamente atenta para que o pênis dele não tomasse outro caminho senão o do interior de sua vagina.

- A melhor defesa é o ataque, já diz o ditado.

- Humm, humm... – gemia a mulher, baixinho, agora recostada no abdômen do homem -, a gente bem que poderia ter um filho. Mas sem aquele terreno, sem a nossa própria casa, fica inviável.

O homem explodiu em gozo, regou com o branco leite seminal todo o órgão feminino. A mulher tombou para o lado, ainda nele enroscada. Inspiravam e expiravam sofregamente. Tinham os aspectos faciais bons, aparentavam felicidade. Há muito tempo não sentiam tanto desejo como naquele momento. O casamento partia para o sétimo ano e parecia que a casa em que viviam de aluguel estava impregnada de uma monotonia aterradora. O amor começava a ser tratado como um fator opcional, coisa de domingo, quando não se tem nada por fazer e o tédio massacra. Um edredom aveludado fazia-se de roupa de cama. A cor creme das paredes trazia um pouco de paz aos olhos dos dois, esgotados pelo dia estafante.

- Te amo.

O homem voltou-se.

- Nos amamos muito, não?

A mulher meteu-se a levantar, indo de pronto à sala. Encheu mais um copo com bebida, agora vodka, e consigo mesma disse:

- Nem que eu mate a sua mãe, amor, mas aquela terra amanhã será nossa.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

relato de um náufrago



Comece a imaginar-se como sendo você um membro da armada marinha colombiana, prestes a embarcar de volta ao seu país, depois de passar os últimos oito meses na região de Mobile, Estados Unidos, esperando que o conserto do destróier de guerra em que você e todos os seus companheiros estavam fosse realizado. Ansioso pelo retorno, você não vê a hora de estar novamente junto a sua família, vivendo sua vida, dentro da mais pura normalidade. Todavia, no retorno você se depara com uma situação inesperada de perigo, o mar está muito revolto, este investe constantemente contra o navio que, sem suportar as más condições do oceano, acidenta-se emborcando um de seus lados para dentro das águas, fato que faz com que oito dos tripulantes sejam atirados ao mar, munidos de nenhum artifício de salva-guarda. Dos oito, apenas um consegue alcançar uma pequena balsa reserva. Este, em melhores condições, ainda tenta resgatar alguns de seus companheiros de viagem, mas sem êxito devido ao mar tormentoso. Aos poucos, você vai perdendo contato com o destróier que, recuperado do meio-tombo, consegue se restabelecer e seguir sua rota natural, o porto de Cartagena.

Os minutos vão passando e você agora olha para todas as direções possíveis e não enxerga mais nada além de um mundéu aquático, repleto de seres misteriosos e imprevisíveis. Você está sozinho e tem apenas um par de remos, a roupa do corpo, um relógio de pulso e mais alguns poucos objetos quase sem nenhuma serventia. Insistentemente você olha para os ponteiros do relógio, confiante de que a qualquer momento algum avião de ajuda ou mesmo um barco de apoio chegará para te apanhar. Você pensa que tudo está sob controle e agradece por toda a sorte. Mas as horas vão sendo vencidas pelo tempo, você sente fome, sede e frio, e nada, absolutamente nada do resgate aparecer. A noite cai e você é um marinheiro à deriva, sozinho sobre as ondas, boiando em seu incerto destino. Experiente e com a teoria do mar fresca na memória, você tenta não se desesperar. Porém, você começa a atravessar dias e noites na mais plena solidão, luta contra as necessidades do corpo, contra tubarões que lhe envolvem a balsa em horas pontuais, contra a fadiga da alma, começa a ter alucinações, sofre desmedidamente com a proximidade da morte, resguarda-se já quase inconsciente de tudo que o rodeia, enquanto as águas verdazuis do mar insistem em te levar para algum lugar.

No décimo dia, com a pele espocada pelo sol, debilitadíssimo, você abre os olhos e vê ao longe o formato da costa. É terra, você exclama! De súbito, você retira forças extras de não sei onde e salta ao mar para o nado triunfal. Incansável, desejando a vida, você vence o oceano e chega à praia, onde desmorona quase morto. Você está em Mulatos, pequena aldeia colombiana. Alguns moradores acodem em seu resgate. Aos poucos você vai melhorando e é descoberto pelas forças nacionais. Você é o único sobrevivente do acidente acontecido com o destróier A.R.C. Caldas. Você é Luís Alexandre Velasco e a partir de agora é o mais novo herói da Colômbia. Você conta a história ao mundo do jeito que o governo mandou que você contasse, o mundo a reconta de variadas formas, você ganha rios de dinheiro, você é “proclamado herói da pátria, beijado pelas rainhas de beleza, enriquecido pela publicidade...” Você é Luís Alexandre Velasco, o mesmo que depois de todo o alvoroço resolve ir à redação do jornal El Espectador para contar a verdadeira face dos acontecimentos sucedidos em 28 de fevereiro de 1955. Um jovem repórter iniciante, de plantão, de nome Gabriel José Garcia Márquez, a partir dali iria te ouvir em vinte sessões de seis horas ininterruptas. A revelação da verdade causaria um frisson em todo o país. O segmento político fora atingido, Velasco passaria de herói a vilão em poucas horas, seria “logo abandonado pelo governo e esquecido para sempre”, enquanto que Gabo, apelido do repórter, entraria num exílio sem previsão de fim.

A história é verídica e foi contada nas folhas do periódico El Espectador em 14 capítulos, ao estilo folhetim. Na ficha catalográfica, Relato de um náufrago é classificado como sendo uma biografia. A bem da verdade é que Gabo constrói uma bela grande-reportagem – não seria melhor tachá-lo de um romance-reportagem? -, aos moldes dos grandes expoentes do movimento New Journalism norte-americano. Com tradução de Remy Gorga, Filho e com ilustrações de Carybé, o livro é um bom início para quem quer investir sua leitura na obra mágica do Nobel colombiano, autor do mais que clássico Cem Anos de Solidão. E então, quer saber o que realmente aconteceu em alto-mar? Comece a ler agora mesmo...


MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Relato de um náufrago. 34ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008.

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